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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Discutir a relação no consultório médico

Excelente matéria publicada no site da Folha de São Paulo domingo, 02 de Outubro de 2011
  
Pacientes reclamam de falta de atenção dos médicos nas consultas; profissionais se queixam da pressão e da falta de tempo para atender.

Se houvesse uma "D.R." (discussão de relacionamento) entre médicos e pacientes, os últimos reclamariam que não são ouvidos da forma e pelo tempo que gostariam.
Segundo uma pesquisa publicada no "British Medical Journal", médicos interrompem os pacientes, quando estes fazem suas queixas, depois de 16 segundos. Outros estudos falam em 18 ou até 23 segundos.
É aquele tipo de consulta da qual a pessoa sai sentindo insatisfeita.
A professora de inglês Patricia Fernandes, 22, de São Bernardo do Campo, conta que, há seis meses foi a um médico que considera bastante experiente para tratar uma inflamação na orelha, que causou dores e febre.
Quando começou a descrever o problema, foi interrompida depois de dez segundos.
"Ele pediu que eu virasse o rosto para mostrar a orelha. Não se levantou nem se inclinou, não encostou nela, não disse o que poderia ser e sugeriu que eu fosse para casa esperar a inflamação passar."
Para ela, os médicos acabam entrando em "piloto automático. "Eles deixam de demonstrar interesse em ajudar", conta ela.
Já a dona de casa Celia Lessa, 61, de São Paulo, teve problemas em uma consulta com um neurologista renomado, ao qual levou seu pai, que tinha 83 anos na época.
"Fizemos todo aquele relato de doenças anteriores e disse que meu pai usava marcapasso. O médico anotava tudo, mas nem olhava para a gente. Falou que ia pedir uns exames, e um deles era ressonância magnética."
O problema é que ter um marcapasso é contraindicação para esse exame, e Celia só descobriu isso quando a enfermeira alertou para o problema, no laboratório.
"Foi falta de atenção, de interesse, e poderia ter causado a morte do meu pai."

OUTRO LADO
Os médicos, por outro lado, também reclamam de pressão e dificuldades para um melhor atendimento.
"Às vezes, o médico trabalha em condições insalubres, atende muitos pacientes por dia. Vira um trabalho escravo. Como se pode exigir um trabalho humanizado dessa forma?", diz Mario Alfredo De Marco, professor da Unifesp.
Para ele, que é psiquiatra, há problemas dos dois lados.
"Tem paciente que entra no consultório agressivo, irritado porque o atendimento é complicado, e outros até desafiam os médicos. E há profissionais que não gostam do contato com o paciente e atendem a toque de caixa."
Frente a esse conflito, a médica americana Wendy Schlessel Harpham escreveu o livro "Only 10 Seconds to Care: Help and Hope for Busy Clinicians" (Apenas dez segundos para tratar: ajuda e esperança para clínicos ocupados).
Segundo ela, o paciente pode conhecer mais sobre o dia a dia dos médicos, para entender por que o cuidado, muitas vezes, não é o ideal.
Os médicos podem descobrir jeitos simples de mostrar compaixão, além de ajudar o paciente a lembrar de detalhes que vão ajudar o diagnóstico. Ainda que só tenham dez segundos.

"Se o médico não te escuta, é melhor procurar outro"
Para a médica Lisa Sanders, colaboradora do seriado "House" (Record e Universal Channel) e professora em Yale, as consultas deveriam ser uma cooperação entre especialistas: o médico, que entende de doenças, e o paciente, especialista em si mesmo.
Sanders, que tem uma coluna sobre diagnóstico na "New York Times Magazine" e é autora do livro "Todo Paciente tem uma História para Contar" falou à Folha por telefone.

Folha - Por que alguns médicos não escutam os pacientes?
Lisa Sanders
 -Os médicos são pressionados a atender os pacientes cada vez mais rápido, e escutar leva tempo -apesar de não levar tanto quanto os médicos temem.
E escutar é difícil para todo mundo, médico ou não. Quando você ouve uma história, sua mente está tentando descobrir o significado dos fatos que você está recebendo. Isso cria suspense. A sensação pode ser prazerosa -por isso lemos histórias de mistério. Mas quando é algo que pode ser importante, não gostamos tanto. O médico tem de aprender a lidar com o desconforto dessa incerteza.

Será que os médicos acham que os pacientes falam demais e acabam contando coisas que não têm nada a ver?
É verdade que os pacientes podem não saber o que é importante entre tudo o que eles dizem para o médico. Os médicos, às vezes, acham que é melhor fazer perguntas diretas para encontrar a informação de que precisam, ainda que isso não seja verdade. Mas quando você faz perguntas, tudo o que você consegue são respostas. E, às vezes, você precisa de mais do que respostas. Suas perguntas podem conduzir a conversa na direção errada e você nunca vai saber.
Os médicos ficam achando que os pacientes vão falar sem parar. Mas eles não fazem isso. Os pacientes respeitam muito o tempo do médico e, quando chegam ao consultório, eles já ensaiaram a queixa. A pessoa já contou o que está sentindo para a mulher, os colegas de trabalho, os filhos... Estudos mostram que tempo médio que um paciente usa para falar é de um um minuto e meio.

Como o paciente deve agir se for interrompido?
É difícil para o paciente dizer: "Posso terminar o que eu estava dizendo?". Mas ele precisa fazer isso. Se o médico não está escutando, procure outro. Os pacientes devem se sentir livres para reclamar. Se reclamar não resolver, é melhor achar outro.

Mas o médico tem um ar de autoridade que intimida, não?
Sim, mas a medicina deveria ser uma colaboração entre dois tipos de especialista. Um é o médico, especialista em doenças, em como o corpo funciona. O outro é o paciente, especialista em seu próprio corpo, em como está se sentindo. Um médico não pode saber como o paciente se sente sem perguntar. Os exames físicos, hoje, também são uma arte em declínio. É preciso estudá-los e valorizá-los mais.
Fonte: Folha de S.Paulo - MARIANA VERSOLATO - DÉBORA MISMETTI

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